quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Poema do sétimo ano

Nossa ciranda é ao som do batidão.
Cheia de infâncias,
adolescências,
todas curiosas.
Temos que estudar para as provas:
português, matemática, ciências,
geografia, história...
Mas queremos mesmo divertir a 
educação física.
Inteiros não são os números e sim
o coração.
Coração substantivo simples
que nos aquece quando
estamos de férias.
E aí,
a saudade bate mesmo quando
não tem jeito do abraço.
Passaremos de ano?
Seremos bons meninos,
boas meninas
na próxima jornada?
O que sabemos é o florescer da vida
a cada sopro de mundo,
na relva do sétimo ano,
enquanto esperamos o futuro
ao som festeiro
daquele batidão.
                                                         (dezembro 2022)




sábado, 3 de dezembro de 2022

Memória afetiva

Perdi todos meus amores antigos 
num aspirador de pó.
Lembro-me de ingratidões que 
beijavam meu rosto. 
As ruas não cabem mais dentro 
dos olhos.
Agora, elas se confortam mais 
numa tela breve de celular.
A praça,
a pedreira,
o campo de terra batida,
os conselhos de vó,
ou até mesmo aquela escolinha
pré-fabricada em janelões avulsos
ficaram esquecidos no escombro
de décadas perdidas.
Existe um sorrateiro pesadelo 
exaurindo lembrança,
tanta lembrança que carece
de saudades.
Minha memória corrói a noite.
Uma angústia rabisca o espelho
dentro de meu assombro
que se convém eterno.


                                                         (dezembro 2022)

domingo, 27 de novembro de 2022

Poema cínico

Talvez eu grite um silêncio escondido.
Ou minta aquela verdade guardada
feito pólvora.
Certeza faço de conselhos encaixotados
entre arbustos.
Trago enfim teu prenúncio de ser infame
ao menos uma vez.
E apeteço um sorriso enfadonho de 
dentro de meu semblante cretino.

Uma praça ao lado demora a me te
chegar no horário. 
Confuso vejo a lembrança largada
a passos lentos.
Teu rosto carrega mais uma tarde
que se faz oportuna.
Sou manipulado a barro.
Contido em vertigem.
Dissoluto por acaso.

Caibo perfeitamente em meu cinismo crônico,
enquanto convido um destino indesejado para
jantar.

                                                    (novembro 2022)


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Versos para Darinha

Quando a saudade germina
alguma estrela,
conto os dias feito perfume.
Aquele sorriso,
tanto e vasto sorriso,
é laranjeira alvorecendo
minhas mãos,
meu tempo.
Jardim de mim avivado
por destino adornado
em ventania. 
De teu abraço encontro
a vertigem mais linda
vista de perto.
Do amor decanto um olhar 
mítico e gentil,
que me acalanta pelos 
momentos revigorados
em amanhecer 
e coração.

                                                  (novembro 2022)

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Motivação inversa

Invento brisas por meus
sonhos de rapina.
Gravo cada palavra como
solidão incurável.
Caminho a métrica que me
ruge pássaro.
O amanhã não renasce.
O mundo não convence.
Apenas minhas mãos 
dormentes sorriem.

Quero o retrato intranquilo
das coisas infames.
O destino carrego entre
pequenas bandejas-véu.
Nossa certeza inquieta
tudo aquilo que nos ronda.
Enquanto isso,
morreremos cada minuto
de infinitos,
ainda restando pétala.

                                                        (novembro 2022)

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Entressafra

Eu sobrevivo um mundo.
Pressinto o som do mar.
Cada céu rabisca a rua que passo.
Extravaso o caos. 
Sei que entre rostos emudecidos
há segredos irrefutáveis.
E, mergulhado em minha própria
insegurança,
assovio uma canção inútil.
Vejo-me risível 
em ladeiras frias.
Encontro-me recluso
em destinos pobres.
Cabe a mim redesenhar um dia
delicadamente medonho,
rascunhando um poema morno
que irradia alguma
manhã entediada.

                                                        (novembro 2022)

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Ponteiro

Tento barganhar alguns minutos de ócio.
A água ferve em brasa infame.
A roupa suja está posta há séculos. 
Eu penso no dia seguinte enquanto
uma coceira me grita alto.
Algum café agridoce me faria bem,
mas tenho uma angústia para cuidar.
O tempo passa no trilho de um azul 
Azul que se reconta numa camisa minha
qualquer.
Azul onde reviro o fogo da fervura 
dentro do próprio desdém.
Amargos vão os dias em que serei
um delírio estranho.

O ventilador em meu rosto hesita
pelo tempo adentro.
E cada destino que brinca com estrelas
recolhe meu sono atrasado
como prêmio de consolação.


                                                       (novembro 2022)

Gratidão

A minha alma encheu-se duma retina cinzenta  Isso posto à mesa  por míseros centavos. A vida vai e vem moldando espasmos infantis. Assim,  t...