quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Brevidade

Quando o sol gritar o mar
E eu fabricar o céu,
Admito meu deserto
como advento de
poesia.
Enfeito tua resposta,
teu medo,
tua casa.
Anseio o pretérito que
me assombra vasto.
E o ínfimo se recria
enormidade.
Dentro do peito emerge
tempestades,
escorando minha vontade
de escalar sombras.
Há dias em que serei
remorso,
Em outros,
nó partido.
Mas caberia naquele sol,
entre céu e deserto,
todo o mar rodeado
de repentina poesia.


                                                              (janeiro 2023)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Boas festas

Entre um prato e outro,
uma lembrança. 
Diante de um gole de vinho,
a conversa vai e volta
feito gangorra.
E a vida segue 
a toque de caixa.
Mãos apressadas,
vozes brisadas,
aquela estrela mais brilhosa
resvala entre corrimãos.
Surge uma lua imensa
escorrendo em sua 
vaidade aprisionada.
Daí dilaceram as ruas vazias
onde olhos maculados
se vêem jardineiros. 

Acabam-se as festas.
Restos se acalantam.
E aquela esperança de 
ceiar um pouco mais,
acaba na esquina fria
de uma realidade irreversivelmente
mesquinha.

                                                         (dezembro 2022)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Poema do sétimo ano

Nossa ciranda é ao som do batidão.
Cheia de infâncias,
adolescências,
todas curiosas.
Temos que estudar para as provas:
português, matemática, ciências,
geografia, história...
Mas queremos mesmo divertir a 
educação física.
Inteiros não são os números e sim
o coração.
Coração substantivo simples
que nos aquece quando
estamos de férias.
E aí,
a saudade bate mesmo quando
não tem jeito do abraço.
Passaremos de ano?
Seremos bons meninos,
boas meninas
na próxima jornada?
O que sabemos é o florescer da vida
a cada sopro de mundo,
na relva do sétimo ano,
enquanto esperamos o futuro
ao som festeiro
daquele batidão.
                                                         (dezembro 2022)




sábado, 3 de dezembro de 2022

Memória afetiva

Perdi todos meus amores antigos 
num aspirador de pó.
Lembro-me de ingratidões que 
beijavam meu rosto. 
As ruas não cabem mais dentro 
dos olhos.
Agora, elas se confortam mais 
numa tela breve de celular.
A praça,
a pedreira,
o campo de terra batida,
os conselhos de vó,
ou até mesmo aquela escolinha
pré-fabricada em janelões avulsos
ficaram esquecidos no escombro
de décadas perdidas.
Existe um sorrateiro pesadelo 
exaurindo lembrança,
tanta lembrança que carece
de saudades.
Minha memória corrói a noite.
Uma angústia rabisca o espelho
dentro de meu assombro
que se convém eterno.


                                                         (dezembro 2022)

domingo, 27 de novembro de 2022

Poema cínico

Talvez eu grite um silêncio escondido.
Ou minta aquela verdade guardada
feito pólvora.
Certeza faço de conselhos encaixotados
entre arbustos.
Trago enfim teu prenúncio de ser infame
ao menos uma vez.
E apeteço um sorriso enfadonho de 
dentro de meu semblante cretino.

Uma praça ao lado demora a me te
chegar no horário. 
Confuso vejo a lembrança largada
a passos lentos.
Teu rosto carrega mais uma tarde
que se faz oportuna.
Sou manipulado a barro.
Contido em vertigem.
Dissoluto por acaso.

Caibo perfeitamente em meu cinismo crônico,
enquanto convido um destino indesejado para
jantar.

                                                    (novembro 2022)


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Versos para Darinha

Quando a saudade germina
alguma estrela,
conto os dias feito perfume.
Aquele sorriso,
tanto e vasto sorriso,
é laranjeira alvorecendo
minhas mãos,
meu tempo.
Jardim de mim avivado
por destino adornado
em ventania. 
De teu abraço encontro
a vertigem mais linda
vista de perto.
Do amor decanto um olhar 
mítico e gentil,
que me acalanta pelos 
momentos revigorados
em amanhecer 
e coração.

                                                  (novembro 2022)

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Motivação inversa

Invento brisas por meus
sonhos de rapina.
Gravo cada palavra como
solidão incurável.
Caminho a métrica que me
ruge pássaro.
O amanhã não renasce.
O mundo não convence.
Apenas minhas mãos 
dormentes sorriem.

Quero o retrato intranquilo
das coisas infames.
O destino carrego entre
pequenas bandejas-véu.
Nossa certeza inquieta
tudo aquilo que nos ronda.
Enquanto isso,
morreremos cada minuto
de infinitos,
ainda restando pétala.

                                                        (novembro 2022)

Gratidão

A minha alma encheu-se duma retina cinzenta  Isso posto à mesa  por míseros centavos. A vida vai e vem moldando espasmos infantis. Assim,  t...