quarta-feira, 15 de abril de 2026

Gratidão

A minha alma encheu-se
duma retina cinzenta 
Isso posto à mesa 
por míseros centavos.
A vida vai e vem moldando
espasmos infantis.
Assim, 
tolo que sou,
agradeço todo segundo
pelo referendo de pedras.

Amanhã será um velho
novo dia,
E serei muito grato
pela palavra que não 
me convém.

                                        (abril 2026)

                                                


domingo, 12 de abril de 2026

Cárcere

Tenho o coração 
repleto de precipícios,
onde o instante não 
se quebra por acaso.

Ainda me resta
o estômago.
                                        (abril 2026)

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Entreamar


Tocar todo o céu, 
delicadamente,
em teu colo.
Depois,
de pleno amor,
amanhecer tua pele,
feito sonho
renascendo entre
cirandas e 
vertigem.
                                        (abril 2026)

quinta-feira, 26 de março de 2026

Relíquia

Hoje trouxe flores que
recordei a contento.
Acalentaram assim
as manhas,
pouco a pouco.
Apenas a relíquia
de mim está vestida
em aço a revelia. 
E aquela sombra
assertiva ao mar
cativa o tempo
como estrada.
As flores sorriem enquanto
alvorada.
E essa relíquia de mim,
tão estranha,
encontra-se pronta
para contar veredas.

                                    (março 2026)

terça-feira, 24 de março de 2026

Poemazinho de quinta

O poema rasteja,
ignóbil,
pelas multidões.
E eu vislumbro,
de longe,
um precipício
entardecer
verso adentro
feito cachaça.

(março 2026)

Coeso

o que resta
não se quebra
ou se ajeita
em retalhos
do tempo.

o que move
não se testa
ou se mede
com rasgos
de segundo.

pois eu,
fragmento,
descontento,
sou delírio abjeto
de mim.

(novembro 2025)

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Na medida do possível

sou poeta de fino trato
com pompa, circunstâncias
e dores nos cotovelos. 
assim cato meus versos 
na carne mais sórdida,
na pedra mais ríspida,
na brisa mais tórrida.
entre um segundo e outro,
um segredo e outro,
devoro sonhos 
que me bastam
os dentes
as sombras
os cascos.

sou poeta de fino trato,
estampa castra,
um delírio vértice 
na medida do possível.


                                (junho 2025)  



domingo, 8 de setembro de 2024

Balada de Narciso

Do espelho mundo meu 
redemoinho a sós.
É mais belo ainda face a face
adentro.
Estranho tudo de fora em
que aguarda a seco.
Pouco seria narcisos em sol 
gratinados em silêncio.
Sou muito do mesmo,
argumento e imagem.
Sou pouco de todos,
veredas e tempo.
Basto-me coração volátil 
em seus olhos.
E inquieto sombra pelo que 
me diz cortejo.

Entre espelhos meus revogo
o mundo redemoinho.
Estilhaços de meus sonhos
afogados mar e vento 
por cantigas de mim.
                               
                                (setembro 2024)



quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Casório

O amor ainda respira
de véu, 
grinalda
e bem querer.
Talvez um céu possa dizer
de amar a amar eterno.
Ou percorra o sussurro
na mansidão das estrelas. 

O amor ainda respira,
feito flor e brisa,
para todo o sempre.

                                 (setembro 2024)

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Versinhos para Dona Alzira

Aconchego de vó
tem gosto de céu.
A risada sem medo,
os olhos tão firmes.
Cheiro de café forte
que conversa tantas lembranças.

Ah... aconchego de vó.
A falta que aquece o mar.
O mar de mãos enrugadas,
de voz embargada,
de um infinito tão breve
alvorecendo o tempo.

Aconchego de vó
tem sabor de pastel,
caldo de cana,
e um pouco de história
para ninar estrelas.

                                                            (julho 2024)

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Ao redor

Tenho um frescor em dilúvio 
nas mãos.
Por hora vento,
outras vezes pedra,
sou o que rasteja intimamente
entre as rotinas.
Nasço na sordidez dos versos.
Ando pela valentia das sombras.
Não ergo um centímetro de mim
senão destino.

Os tempos são outros
e eu também sou:
Arquiteto de meu tempo
na imensidão do nada.

                                                              (julho 2024)

terça-feira, 25 de junho de 2024

Bastardo

Fiz um poema ao rigor da noite
onde estrelas maldizem destinos.
Os versos são mais ou menos
cegueiras a gotas.
As mãos escrevem apenas 
o que me cabe pedra.

E vai seguindo a vida por descuido...
A agonia reciclada por conveniência.
O precipício ardendo pétala 
em fogo brando.
E as mãos apenas observam.

Da minha língua bastarda
renasce um grito de misericórdia,
que cuida de meus segundos
assim que eu chegar em casa.

                                                                (junho 2024)

Escangalho íntimo

Homem de palavra 
não arreda reticência.
Não suporta
agouro do aço,
muito menos 
cobiça do vento.

Homem de palavra 
arquiva asfalto em pé.
Espreita
seu nome por terra.
Devaneia
as ruas em flores.

Quando tudo se acabar
-ternura fértil dos deuses-
a palavra acolherá o homem
enquanto brisa.

                                                             (junho 2024)


segunda-feira, 3 de junho de 2024

Paz entre nós

Aquela paz,
tão rara e branda,
estende voz a compaixão.
Aquela paz,
tão mar e lírio,
floresce em nós serenidade.
Aquela paz
perdida em vento,
encontra abrigo esquina afora.
Aquela paz,
em dias fartos,
sublima o céu de um semblante.

Florescem horizontes.
Um amanhecer nos aguarda
entre cortinas de estrelas.
Minhas mãos bordam o futuro
a partir de um cântico,
emoldurando assim esperança:
algum sonho,
aquela paz.

                                                       (junho 2024)





segunda-feira, 20 de maio de 2024

Poema torpe

A mão do homem arde 
em seu próprio sangue.
Destino escombro
que retorce enchente.
Castigo escombro
que moldura bomba.
À deriva,
o homem dança
seu delírio ou extermínio.
Sem direito a réplica.
Sem vestígio a pólvora.
E assim rumina a humanidade:
banhada em seu altar 
dourado de sombras 

A mão do homem arde  
em seu próprio sangue,
enquanto uma lágrima atroz
estende seus versos
para acalentar
alguma esperança.

                                                          (maio 2024)

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Escalada

algum céu azul,
entre cacheados de brisa 
e segundos florescidos,
delira um brinde à esperança 
enquanto espero,
ansiosamente,
a próxima vaga
para consulta médica.

                                               (maio 2024)

terça-feira, 30 de abril de 2024

Gotas de asfalto

o vendedor grita a seco
saquinhos de bala.
carros trafegam goela abaixo
meus olhos turvos.
a vida seria mais doce talvez 
dentro o asfalto.
aquela avenida carrega sonhos 
diante entrelinhas.

o poema corrói o concreto
estômago afora. 

                                                          (abril 2024)



sábado, 16 de março de 2024

Feijão maravilha

Era a panela assoviando feijões. 
Caldo, grãos, aroma
fome.
Olhares assustados apreciam
a fumaça densa da panela.
Outros apenas imaginam.
Era aquela mesma panela,
de pensamentos agridoces,
unindo tempos e tempo
feito destino.
O feijão é servido
em pratos sórdidos.
Há algum vazio
estreitando as ruas.

Enquanto isso,
os olhos preenchem 
pontadas silenciosas
de minha boca faminta 


                                                               (março 2024)


Andarilhos

Feliz é aquele tragando vida
num gole de cachaça.
O mundo torna-se breve,
vadio,
insano.
Perfeito para conversas sem sentido
para o jantar.
A vida engole seco
a cachaça.
O jantar cospe a conversa
sem cerimônia.
A brevidade esmorece o sentido 

Feliz é aquele colhendo o resto
que lhe cabe solidão.
                                                         (marco 2024)



quinta-feira, 7 de março de 2024

Oito de março

A potência de uma mulher 
rompe o frescor da manhã.
Carrega jasmim em seu colo
como se pudesse acolher
os céus.

O verso de seu mundo
será vasto,
enquanto viver a poesia
que apenas lhe basta
ser mulher.

Gratidão

A minha alma encheu-se duma retina cinzenta  Isso posto à mesa  por míseros centavos. A vida vai e vem moldando espasmos infantis. Assim,  t...