segunda-feira, 16 de maio de 2022

Artimanha

Meu universo apodrece
cuidadosamente,
em meio a uma deliciosa
mágoa de destinos.
Tento ser absolutamente
ríspido com meu deleite
de saborear o vazio.
Nada me apetece ao sabor 
da aorta pulsando 
pelos dedos,
pelos pecados,
pelos poderes por mim
enterrados.
Tenho aquele gargalhar medíocre
entranhando os ouvidos 
entupidos de ócio.

Sinto o cheiro do passado
roçando o rosto em mim.
Absorvo o vento pardo
que insiste em abraçar 
angústias.
Aquela artimanha que desconforta
meu tempo,
desliza suavemente sobre 
parasitas luxuosos,
enlatados dentro de um
anoitecer embriagado.


(maio 2022)




Trançados

Como nós em resistência,
por tranças bem entrelaçadas
em nós,
sobrevivemos.
Entrelaços que ecoam um grito,
um riso discreto,
alguma esperança escondida.
Resistência em nós
por tranças firmes,
nos passos longos,
em canções de igualdade,
nos torrões de ternura.
As mãos erguem-se
pela lágrima ancestral
que conforta o murmurar
de estrelas.
Nós fincaremos resistência
em tranças bordadas por nós,
como se aquele amanhã
despertasse inquieto,
para renascermos assim rocha
enquanto os dias alvorecem
uma solitária flor.

                                      (maio 2022)

terça-feira, 3 de maio de 2022

Canto de girassóis

Quando os girassóis cantam,
os olhos se curvam
àqueles risos mais sábios
De um novo tempo
sabor em saudade,
de vida.
Girassóis que perfumam
a maturidade dos sonhos,
a sinceridade de almas,
cataventos em sincronia.
As horas irão passar rápido,
como se conversasse o mar
em comunhão com os céus.
E o florir de girassóis,
confortavelmente,
será um brinde às
vertigens de mundo,
adornando assim
jardins de gratidão.

                                                  (maio 2022)



segunda-feira, 25 de abril de 2022

De rapina

eu sou um perdido no meio
do povo.
devoto grão gargalhando o delírio.
de resto recolho meus passos
em contagem regressiva.
coleciono minutos numa noite
que não atrevo os olhos.
o escuro é breve sinfonia do 
silêncio.
o corpo se contorce
entre espinhos de vento.
tropeço nas esquinas mais
robustas que já devorei.
não sou miragem,
muito menos amor.
sou um pedaço de fim
alucinado a porções
dedilhadas.
perdido nas horas, 
no centro do povo.
no ventre da vida.
 
a comida está no forno
enquanto a esperança sorri
depressa.


                                                                  (abril 2022)

domingo, 6 de março de 2022

Incomunicável

do mundo só quero que me esqueçam

na sombra mais vasta da memória.
não venham com sussurros sentimentalóides
para acalentar o que não existe.
basta um delírio para estar confuso
entre as páginas de um livro.
basta uma chuva para me conter louco
dentro de meus sonhos.
sobrou uma minúscula nuvem
que paira sobre mim
feito inquietude.
do mundo só quero que me esqueçam.

Perco meu celular na imensidão

das calamidades.

Não tenho mais o que me conturbe,

estou isento de meus hipócritas.

Isento de mim mesmo.

Apenas sorrio em desespero,

aguardando a próxima mensagem

que virá na normalidade

de minha distração.

                                                           (março 2022)


 



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Capela

Dentre os santos
Santo Antônio guia os sonhos,
os casórios,
o bairro simplório que pede
alguma paz.
Santo que se faz Antônio
das festas sabor de
saudade.
Das missas que saúdam o sino
ecoando a Capanema.
Das preces que lamentam
mar a mar aos dias de céu.
Tenho comigo orações 
em silêncio vivo,
clamando Antônio santo
por vivendas 
e passaredos.
Dentre os santos,
vive Antônio na capela,
que se recria passado
entre cantar de pássaros
e reverência.

                                                                                                                       (setembro 2021)

Pedra maracajá

Do topo daquela rocha
eis a pedra maracajá
com olhos na baía,
no azul cinzento brisando
o marulho do horizonte.
Maracajá que espera 
seu destino vasto,
seu conforto diante da ilha,
seu beijo de amor guardado
entre esconderijos certeiros.
Eis a cantiga gelada e silenciosa
daquela pedra imponente,
acolhendo embarcações 
que carregam alguma lembrança.
Do alto daquela rocha,
a pedra maracajá assiste,
pacientemente,
a baía em seu bailar inquieto,
bravio,
no alcançar pálido de
contar infinitos.


                                                                                                                    (setembro 2021)



Gratidão

A minha alma encheu-se duma retina cinzenta  Isso posto à mesa  por míseros centavos. A vida vai e vem moldando espasmos infantis. Assim,  t...