quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Paterno

Entre cicatriz e angústias,
a carícia do tempo
torna-se pesada.
Borram-se as botas que 
revivem alguma infância.
Para mim, 
pesadelos invadem noite a dentro 
feito corvos juvenis.
Do chicote na pele
desenhando sombras.
Da fria manhã que 
desdenha esperança.
Assim, descanso em volta 
de medos vis.
Devagar, arrumo minhas pedras
da melhor forma possível.
Caminhando por
pensamentos secos,
preparo uma amarga 
xícara de chá
feita em memória,
trauma 
e lágrimas.

                                                            (outubro 2022)

domingo, 25 de setembro de 2022

Concertos para BR

Vejo algum fio de sol na estrada.
Mar e céus a pino,
dança de prédios ao redor do tempo.
Eu prefiro a timidez do asfalto
enquanto me absorvo passarelas
em velocidade ríspida.
A rodovia tenta rodopiar ao som
de algo que não prevejo.
Sinto as almas abafadas,
o calor exposto em barquinhos 
solitários.
O dia se prepara entre calafrios.
Ganho do estômago mais um 
rito de fome.
Embora aflija meu voraz sentimento,
a cor da monotonia invade a pista.
Mais adiante,
preparo uma tosse morna, 
rabugenta,
dentro daquela van inquieta.

(setembro 2022)

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Poeminha de guardanapo

Dos poros irreversíveis,
repletos de gordura,
costumes
e desesperanças,
nasce a inspiração
desnuda,
impaciente,
desalinhada
a partir de versos tortos
que contornam a tinta da caneta
ao acaso.
Saciada ao desdém,
aquela tinta segue seu fluxo
arredio,
vívido,
naquele menu reconfortado,
diante do vigor perplexo
de um macio guardanapo.

(setembro 2022)

Rio Jequiá

Cesto aberto em vida,
em vento.
Deságua mar orgulhoso
a ser sustento.
Cesto aberto em sol,
em verões.
Peixes que conversam 
a baía por redenção.

O rio que se diz Jequiá
por acolher seu povo.
O rio que se faz Jequiá
por enternecer a terra.

Desse rio, 
águas consolam a ribeira
do tempo,
em cesto aberto,
para encantar diante de sua ilha,
o despertar finito dos homens.

(setembro 2022)

Precipícios

Tenho as amarras cansadas,
a mente confusa.
Os olhos estão inchados de
tanto hesitar.
Ainda bem que as flores estão
no lugar,
o cardápio bem feito
e o meticuloso jeito de viver
ainda respira a vácuo.

O grito é o pressuposto dos
insanos.
Eu apenas escuto em silêncio.
Atrevido aquele dia em que o
discurso inunda o coração.
Sou algum mundo imerso,
sem rumo,
que confronta o acalanto das estrelas
em troca de algum sossego
me restando migalha.

                                                        (setembro 2022)

terça-feira, 28 de junho de 2022

Coletivo

Da velha carcaça em ferro que balança
subitamente,
inclino para a solidão
Sentado no desconforto de cadeiras sujas,
espremo toda angústia
encostado numa janela.
Os arranha-céus lá fora
ruminam a apatia
de quem já se cansou,
mesmo com o frescor avulso 
da manhã.
Ao meu redor,
o vai e vem de pessoas
desafia a impaciência
conformada entre restos.

O balançar do velho amontoado continua.
Assim como continua a apatia lá fora.
Os olhos em dezenas cruzam-se ao nada,
E eu,
em meu delírio íntimo,
atrevo-me ao coletivo
como se pudesse conversar,
dentro de meu meu desdem,
com minha própria desilusão
feito sombra
e carcaça.


                                      (junho 2022)

sábado, 28 de maio de 2022

Vênus

Os véus bailam.
Os véus ventam.
Dançam o branco-vinho
em espirais sonolentos.
Olhos em transe
respiram no arder 
do tempo.

Os véus se tocam
Os véus eternecem.
Do céu abrem-se
estrelas que 
conduzem 
sussurros.

Os véus se beijam 
entre as esquinas 
dos versos,
enquanto eternos 
passeiam em
sua impiedosa
sinfonia.

(maio 2022)

Gratidão

A minha alma encheu-se duma retina cinzenta  Isso posto à mesa  por míseros centavos. A vida vai e vem moldando espasmos infantis. Assim,  t...