terça-feira, 4 de julho de 2023

Fuligem

Um bólido
rasga os ossos
imerge o tempo
faz de mim
incerto.

Um vértice
molha o aço
reluta o morno
age a cor
cinzenta.

O trânsito anda pesado por aqui.
Há algum lugar que me conserva pó.
Sou aquela brisa aguda me acalmando
ao som póstumo do vazio.

                                                           (julho 2023)




segunda-feira, 3 de julho de 2023

Poema de férias

Carrego um ônibus
na palma dos meus segredos 
Pessoas apitam olhos
para longe de mim.
Quero descansar livre de suas mãos,
de suas manias,
de cada escora metálica
que me aprisiona dentro
de casebres.
Trago flores secas
para os veleiros afins.
É a melhor forma
para acarinhar um grito.
Abro um verso atípico.
Vejo palavras em transe.
Deliro em movimento
esperando um dia após o outro...

Minha poesia está de férias.
Voltará assim que eu estiver
agridoce em casa.

                                                       (julho 2023)

domingo, 25 de junho de 2023

Amargor

Conversei um pouco com a madrugada:
as esperanças são descartáveis. 
O que tenho um pouco
são veredas enlouquentes
dentro de uma rotina econômica.
Os sonhos estão natimortos,
orvalho recostado à janela,
olhos imponentes ao nada.
Tento ficar sozinho ante o vento,
mas consigo apenas
respostas pacientemente inúteis.
 
Deito-me esperando o cansaço.
Um amanhecer estará do meu lado
desdenhando pensamentos.
Afinal,
desperto entre limbos e preces
aguardando ansioso
por uma xícara reticente
de sossego.
                                              (junho 2023)

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Lista de tarefas

tenho a delicada mania de olhar a janela,
contemporizar a fresta de sol que lambe
o concreto,
saborear elegantemente 
o que resta de mim.

as panelas insurgem delirantes
à beira da pia,
o almoço frio está posto 
na cabeceira da vida.

sinto aquele medo que só
a tevê ligada consegue entender,
o barulho ofegante que sai daquela caixa
me acalenta ao deboche.

as ruas me trazem a poeira fina
das sombras
e eu preparo uma canção indigesta
para dormir.

                                                     (junho 2023)

domingo, 18 de junho de 2023

Ensejo

A vida perpassa o tempo feito bolha.
E eu,
de tão estúpido,
tropeço palavras
na razão do vazio.
Tenho o mundo esquecido
em meus braços,
em meu estômago,
em minha brisa.
Feito memória,
preparei um jeito simples
de maldizer aquele tempo.
Basta um simples ensejo,
um buliçoso ensejo,
para que eu possa enfim
ter algum verso de criança.
Aquele verso rabiscado
por amanhãs que nunca
refletirá aos escombros
cirandas repetidas
de mim mesmo.

                                                                (junho 2023)

Maeve

Um luar imenso
- do tamanho de um céu-
cabe a sorrir
no arredor do tempo.

E tal sorriso,
aclamado entre cortinas,
requer a quietude dos olhos
-  calmamente fartos-
recontando o porvir
aconchegante de estrelas.

                                                    (junho 2023)




quarta-feira, 24 de maio de 2023

Esquecimento

Não serei um vespeiro de memória.
Muito menos a lembrança mais suave
de mim mesmo.
Viverei esquecido em retratos mal falados,
entre destinos que me bastam retalhos.
Uma brisa fria rompe meu rosto imóvel.
Quero apenas a poeira de eternidade
vagando sem querer pelo meu grito.
Ah, maré indócil que me limita
tempo!
Quem me dera acalmar o mar
sem atrever meu coração...

Por um acaso,
serei esquecido em migalhas finas
para que então,
eu possa acalentar um céu
na verdade incrédula
de minha loucura.

                                                                (maio 2023)

Gratidão

A minha alma encheu-se duma retina cinzenta  Isso posto à mesa  por míseros centavos. A vida vai e vem moldando espasmos infantis. Assim,  t...