segunda-feira, 20 de maio de 2024

Poema torpe

A mão do homem arde 
em seu próprio sangue.
Destino escombro
que retorce enchente.
Castigo escombro
que moldura bomba.
À deriva,
o homem dança
seu delírio ou extermínio.
Sem direito a réplica.
Sem vestígio a pólvora.
E assim rumina a humanidade:
banhada em seu altar 
dourado de sombras 

A mão do homem arde  
em seu próprio sangue,
enquanto uma lágrima atroz
estende seus versos
para acalentar
alguma esperança.

                                                          (maio 2024)

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Escalada

algum céu azul,
entre cacheados de brisa 
e segundos florescidos,
delira um brinde à esperança 
enquanto espero,
ansiosamente,
a próxima vaga
para consulta médica.

                                               (maio 2024)

terça-feira, 30 de abril de 2024

Gotas de asfalto

o vendedor grita a seco
saquinhos de bala.
carros trafegam goela abaixo
meus olhos turvos.
a vida seria mais doce talvez 
dentro o asfalto.
aquela avenida carrega sonhos 
diante entrelinhas.

o poema corrói o concreto
estômago afora. 

                                                          (abril 2024)



sábado, 16 de março de 2024

Feijão maravilha

Era a panela assoviando feijões. 
Caldo, grãos, aroma
fome.
Olhares assustados apreciam
a fumaça densa da panela.
Outros apenas imaginam.
Era aquela mesma panela,
de pensamentos agridoces,
unindo tempos e tempo
feito destino.
O feijão é servido
em pratos sórdidos.
Há algum vazio
estreitando as ruas.

Enquanto isso,
os olhos preenchem 
pontadas silenciosas
de minha boca faminta 


                                                               (março 2024)


Andarilhos

Feliz é aquele tragando vida
num gole de cachaça.
O mundo torna-se breve,
vadio,
insano.
Perfeito para conversas sem sentido
para o jantar.
A vida engole seco
a cachaça.
O jantar cospe a conversa
sem cerimônia.
A brevidade esmorece o sentido 

Feliz é aquele colhendo o resto
que lhe cabe solidão.
                                                         (marco 2024)



quinta-feira, 7 de março de 2024

Oito de março

A potência de uma mulher 
rompe o frescor da manhã.
Carrega jasmim em seu colo
como se pudesse acolher
os céus.

O verso de seu mundo
será vasto,
enquanto viver a poesia
que apenas lhe basta
ser mulher.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Bissexto

Fevereiro insiste a chegar ao fim.
Há um sol quente esperando por mim
no verso da praça.
Eu,
na imensidão do cansaço.
vejo as vidas mergulhadas
numa esquina vazia.
Calado,
me ponho a degustar cada gesto
que sequer tenha percebido.

Fevereiro insiste a chegar ao fim 
Daqui a quatro anos,
o destino estará teimoso,
indizível,
dentro daquele sol quente
que sorrateiramente desdenha
as manhãs que sou 
apenas tempestade.

                                                   (fevereiro 2024)

Gratidão

A minha alma encheu-se duma retina cinzenta  Isso posto à mesa  por míseros centavos. A vida vai e vem moldando espasmos infantis. Assim,  t...